quarta-feira, setembro 14

Cenas de um Centro de Saúde

Tenho andado a fazer um biscate esta semana, realizando inquéritos por alguns centros de saúde da Grande Lisboa. Há alguns pormenores que valem a pena relatar.

Estou dentro da sala de espera. Lá fora está a médica por quem espero ansiosamente. Vejo-a pelo vidro a falar com um delegado de informação médica. Baixinha, tem um semi-sorriso na face. Apoia-se no varão da rampa de urgência. Esbraçeja. O delegado, alto, vestindo um fato cinzento, talvez quente para aquele dia, contorce-se. Mas parecem estar em sintonia.

Tanto tempo. Estava faminto, eram 15h sem almoçar. Mas ela afinal despacha-se ou não? Ainda por cima nem sei se ela me responde. Têm alergia, estes médicos, a inquéritos desta natureza. Não vejo o problema de uma empresa fazer um estudo de mercado sobre o desempenho dos delegados. Afinal eles pagam-lhes. Será que não têm direito a saber se aqueles a quem pagam fazem o seu trabalho devidamente? A avaliação tem que ser uma constante da vida, se concreta e definida como outra coisa qualquer... Mas eles não gostam. Porque lhes rouba tempo, porque estão a avaliar outras pessoas e podem ser injustos, porque não sabem, porque não se comprometem, porque isto e porque aquilo. E por outros porques menos nobres e que não me atrevo a sugerir, mas que estão lá.

A propósito, voltemos àquela médica. Entra ou não entra? Vá lá... Algum outro médico me havia dito algo desta médica pouco simpático. Algo sugestivo, volátil, insidioso. Algo difuso, fugitivo demais para distinguir a verdade por entre a mesquinhez. Algo relacionado com a sua relação pouco ética com os delegados. Aqueles, que eu avalio, e que me estão a fazer perder tempo. Será que?

Será que vai entrar agora? Tem a mão na porta. Pode ser. Entrou. Pode ser que colabore. Falo com ela de modo diplomático, puxo o charme que me resta de barriga vazia. Aceita. Afinal é muito mais simpática do que esperado. Embora haja algo de postiço naquela simpatia... Um verniz ... que eu não quero que estale. Eu só quero fazer meu inquérito e seguir. Nada pode falhar. Começamos. Duas perguntas, bom ritmo. Interrompe-me. Detesto que me interrompam. Detesto que me interrompam sem avisar. Detesto que não percebam que me quero despachar. Detesto ter que mostrar que não detesto. Vai de encontro a uma administrativa. Mas que raio... Isto estava a ir tão bem... Nem me preocupo com o que ela diz. É algo do género: “Precisamos de atacar a questão da menopausa. Telefone a todas as minhas pacientes em idade fértil, aí entre os 18 e 50 anos.” Já tá? E isso não podia esperar? Ok. Vamos lá acabar. Pergunta, pergunta, pergunta, acabado. Acabado! Vamos almoçar.

A caminho falo com o meu colega sobre essa médica. Engraçado, penso. Havia ali algo que não encaixava. Lembro-me de Freud, do trabalho inconsciente da nossa mente, e eu sempre confiei no meu inconsciente. Afinal, porque é que uma médica considerada preguiçosa pelos seus pares mostrava aquele empenho? Ainda por cima uma médica de uma Centro de Saúde... Eu conheci alguns, alguns muito bons, e mesmo esses não tinham essa atitude tão pró-activa. Porquê aquele empenho na menopausa? Será que me interessa? Aquilo até era bom sinal. Mas não era. Mas não era... Mas porque é que não era? Aah... Não! Sim?... Talvez...