quarta-feira, novembro 16

1ST Round das Presidenciais

Depois das entrevistas dos 5 candidatos presidenciais à TVI, e numa altura,em que as campanhas já começam a ir para o terreno, está na hora de fazer um primeiro balanço.

De uma maneira geral, pode dizer-se , que a campanha se tem centrado na figura de Cavaco. Não só porque é o único candidato que tem ideias para apresentar ( e falo em ideias que se coadunem com a dimensão constitucional que a figura de Presidente encerra), mas porque os outros candidatos ( talvez com excepção de Alegre), centrem o seu discurso quase na sua totalidade, em Cavaco.

As entrevistas à TVI, lideradas pela frenética, implusiva e desgastante, Constança Cunha e Sá ( é óbvio que o Vasco Pulido Valente não tem comparececido a serviço :) !!! ), acabaram por ser um bom barómetro do que os candidatos propõem, daquilo para que vieram, e daquilo porque nem se deviam ter candidatado.
Procedendo a uma análise geral das entrevistas pode dizer-se o seguinte:
Todos tiveram que lidar com a intratável Costança, e desse ponto de vista a entrevista não foi fácil para nenhum deles. Neste particular quem saíu mais maltratado foi Louçã, que no meio do seu discurco cândido " de que cada um tem os votos que merece", foi completamente arrasado. Louçã está completamente desenquadrado desta disputa eleitoral, só concorre para marcar terreno, e tenta passar a mensagem do BE. Esquece-se, que as legislativas já passaram, e os sound bites que amiude utiliza,começam inexoravelmente a soar a um dejá vue que a pouco e pouco vão perdendo eficácia. Louçã, não tem a miníma apetência para o cargo, mas isto também não lhe importa. Mas desta vez, a sua interlocutora desmontou-lhe o seu ar franciscano, dando largas ao vox populi daqueles que o consideram " evangelizador" ou " falso moralista". A dado ponto Louçã, ainda tentou dar a volta ao texto, questionando com pertinência " que não dava para perceber como o PS apresentava 2 candidatos", ao que levou como resposta " eu também não percebo porque o BE tem um". A entrevista não correu bem, e a sua campanha ainda é incipiente, visto como é normal, estar absorvido pelas suas funções de deputado na discussão do orçamento.
Quanto a Jerónimo, talvez tenha sido o que a prestação foi melhor do ponto de vista da mensagem a transmitir. A jornalista, apercebendo-se do mais do mesmo que a sua candidatura representa, nem se deu ao trabalho de ser muito incisisva. Pessoalmente penso que, passado que está a recente subida à liderança do PCP, Jerónimo já esgotou o seu efeito. Ainda para mais, o discurso não muda, é do género cassete estragada. Podia inovar. Mas não. O mundo evoluiu, já passou para o cd, mini cd, dvd, mas ele continua na cassete. E mantém aquele hábito irritante de em cada 5 palvaras, 3 delas serem " camaradas", " trabalhadores" e "capital". Mais um a marcar terreno e sem hipóteses.
Quanto a Manuel Alegre, foi sem dúvida a pior entrevista dos 5 candidatos. Uma entrevista vazia de conteúdo, sem ideias, onde por diversas vezes caíu em contradição, umas motivadas por lapsos seus, outras graças aos artigos que a sua mandatária Inês Pedrosa se encarrega de ir espalhando pela imprensa, tanto faz que seja na Mulher Moderna ou no Expresso, ela não se cansa. E depois quem paga é o candidato. Manuel Alegre, ainda que sem ideias, foi eleitoralmente inteligente. Não atacou Cavaco " com ele na presidência dormia descansado", apaziguou hipocritamente a sua relação com Soares, e olvidou Louçã e Jerónimo. Passou um mau bocado, " o que pensariam os seus apoiantes se as ideias nacionalistas que assume, fossem propugnadas em campanha por Portas?". Ele não respondeu, mas todos sabemos como seria.
Alegre numa coisa já mudou. Tornou-se mais pragmático. Agora o seu principal objectivo já não é impedir o passeio de Cavaco, mas ficar à frente de Soares.
Quanto a Soares, confesso que me desilude a cada dia. Eu devo ser franco, eu sou daqueles que entre Soares e Alegre não hesitaria em votar Soares, não pelo carácter que Alegre tem e que falta a Soares, não pela rectidão de um e a sobranceria do outro. Unicamente, porque Soares é habilidoso e muda de discurso segundo a função em que se insere, e neste momento que atravessamos não iria levantar ondas. Ao contrário, Alegre, é mais dogmático e ortodoxo, defende tanto aquilo em que acredita, que forçaria uma viragem à esquerda que o país de todo, não precisa, nem suportaria. Voltando a Soares, o HOMEM quer, mas já não dá. Podia ter ficado como referente moral da nação, como figura impoluta da história contemporânea portuguesa, mas decidiu vir fazer estas tristes figuras. A entrevista correu-lhe mal. Fala 90% de Cavaco, as únicas ideias que apresenta é que " sabe ouvir os portugueses", e denota aquele ar triste de personagem enfastiada e zangada, de quem não reconhece que o seu tempo já passou e de que já ninguém lhe faz justiça. Como escreveu, Pulido Valente, com a finura que o caracteriza, ser humanista, "é bom para os termos ao almoço", mas dado o contexto socio-político mundial Soares não é mais do que uma personagem, que já não devia saír dos livros de história.
Quanto a Cavaco a entrevista foi de menos a mais. É o único que apresenta ideias para a função a que se candidata, mostrou o que fez, e o que sabe e pode fazer bem no futuro, mas sempre ( e como compete a um candidato responsável) nos limites e formas conferidas pela Constituição a um PR. Constança tentou o sangue, mas Cavaco não caíu na esparrela. Excusou-se a dizer mal de Guterres, Sampaio ou Santana. Tentou ser hábil porque sabe que pode ganhar à primeira volta. É o único verdadeiramente suprapartidário, e que pode transmitir confiança aos portugueses e ser um factor de estabilidade e moralização da vida pública, como aliás demonstra o seu trablho enquanto PM ao nível da concertação social.
Cavaco mostrou sem margem para dúvidas que tem perfil para o cargo, mas também há que dizê-lo, que a sua noção do que é ser presidente não pode furtá-lo, a responder a determinadas questões, como por exemplo, o que pensa da OTA ou do TGV.
Cavaco tem aquilo que falta aos outros, a sua eleição seria um upgrade para a vida portuguesa, e isso é o mais importante no contexto que hoje em dia vivemos.


PC

sexta-feira, novembro 4

Há Liberdade em Portugal?

Este é um país livre, ouvimos tantas vezes. Mas será que por isso se entende que as pessoas que o fazem são livres? Afinal o que é a Liberdade? Pessoalmente, sempre a entendi como a possibilidade de levar uma existência em coerência, sem necessidade de prostituirmos aquilo que julgamos ser. Sem ceder nas nossas crenças. Sem ter que fazer corta-mato, sem sacrificar o correcto ao fácil.

Por esse desejo de Liberdade surgiu no Homem de forma espontânea o capitalismo. É por isso que o capitalismo é, apesar de tudo, fundamental para a felicidade humana. Vem da simples aceitação da natureza egoísta do Homem. Não a discute, não a nega. Apenas a aproveita para o benefício comum. Vem tão bem da disciplina que é a resposta humana ao caos da Natureza. E é, por tudo isso, um elemento estruturante da civilização ocidental.

Considero-me, pois, um capitalista, que é um conceito muito mais profundo que o estereótipo do patr
ão obeso, gotoso, caprichoso e egoísta, de charuto na mão. Esse estereótipo só pode nascer de uma profunda ignorância sobre a história da Humanidade. Afinal, o capitalismo começou com o soldado grego que guerreava por forma a enriquecer. Só assim poderia ter uma quinta, cultivar a terra, viver com a sua mulher e ter filhos. Esta é a história de milhares de milhões de almas ao longo dos tempos. E por alguma razão assim é. Não quer isto dizer que não hajam dados novos recentes e muito importantes. Esse confronto entre o iluminismo libertador da mente, que sublima a criatividade e o conservadorismo que vem das entranhas da Natureza é eterno. E eu diria, com a devida modéstia, que está para ser resolvido dentro em breve. Vivemos pois, tempos interessantes, por mais que não nos pareça.

Vem esta reflex
ão a propósito desse significado do capitalismo enquanto libertação pessoal no contexto português. Será que existe? Será mesmo que nunca se conjugará com o perfil latino? Não sei ao certo responder. Mas há 2 histórias recentes que nos mostram que, pelo menos aqui, nem mesmo um empresário é livre. Basta atentar nas declarações de Belmiro de Azevedo, segundo o qual "Cavaco será um excelente presidente para um excelente primeiro-ministro". Tive sinceramente saudades do Belmiro bruto e visceralmente sincero. Até ele, talvez o último exemplo doméstico de capitalista, se rendeu a esta lógica socialista de graxa ao poder político e irritante equidistância. Ainda por cima manifestamente mal - nem sequer tem engenho para disfarçar essa intenção... Outro caso, menos evidente é o de Joaquim Oliveira: depois de ter comprado a Lusomundo ao executivo PSD, amenizou os anticorpos que criou no PS criando no DN uma direcção de esquerda (António José Teixeira + Eduardo Dâmaso). Nada teria contra isso se não fosse claramente uma manobra de compensação, e que ainda por cima não tem sentido comercialmente, já que esse é um jornal tradicionalmente de centro-direita e com muito potencial nessa área.

Dito isto, será que em Portugal nos podemos considerar livres? Livres para viver sem necessidade de cunhas, de graxa ao poder político, de incoerências várias. Será que podemos escapar a ter que fazer pequenos pecados, a prescindir de uma certa coerência ao longo da vida? Afinal, será que nos chamamos livres somente por termos acabado com uma ditadura? Haverá outro conceito de procura da liberdade que n
ão somente o anti-fascismo?

Cada um ainda é livre de pensar o que quiser. Mas afinal, o pensamento, esse, sempre foi livre.