quarta-feira, outubro 12

A Lição de Rio e Carmona

Agora que a poeira mediática assentou, passada a altura de Eleição e a de Ilacção, julgo que há uma Lição a aprender destas autárquicas. O sinal é, ouso dizê-lo, significativo, porque existe um denominador comum nas vitórias de Rio no Porto e Carmona em Lisboa.

Não me refiro à hostilidade da imprensa, que ambas decerto enfrentaram (destaque negativo para o comportamento editorial da SIC), muito menos à esclarecedora vitória (que para ambas chegou a estar em dúvida). Refiro-me antes ao perfil dos dois candidatos, e ao facto de a sua ascensão, em muitos aspectos improvável (quer dentro do partido quer na eleição), representar, a meu ver, um regresso de outra forma de fazer política.

Tanto Rio como Carmona serão aquilo que, muito displicentemente, a classe jornalística e a chamada esquerda, rotulam como "tecnocratas". Esse timbre assenta melhor a Carmona, mas não menos bem a Rio, quanto mais não fosse pela sua inabilidade na gestão da política corrente, como é paradigmático o caso Pinto da Costa. Serão ambos, pois, políticos-não-políticos. Quer isto dizer que a política por instinto e como fim nela mesma não são seu apanágio. E este aspecto é de louvar. Como teve a felicidade de dizer outrora De Gaulle "A política é séria de mais para ser tratada somente por políticos".

Temos pois, a nível autárquico, em Lisboa e Porto, dois políticos da melhor tradição do PSD. E refiro-me, obviamente, à cavaquista. Sempre achei que era uma falácia grave descartar pessoas bem intencionadas por não se lhes reconhecer "capacidade política". Esse mito, que é muito do agrado do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, tem levado ao longo da história da nossa democracia a que pululem incapazes, dependentes do poder, que se tornam caciques e tiranetes locais, com uma base de apoio que se move subterraneamente e se instala no poder. A verdade cruel é que essas pessoas a quem é reconhecida "capacidade política" são frequentemente peritos no jogo retórico do empurra, na gestão de sinais subentendidos, na criação e término de alianças sem qualquer preocupação com o bem público. Não quer isto dizer que o bom autarca seja licenciado, nada que se lhe pareça. O bom-senso e a boa-fé não se aprendem em nenhuma universidade e há muitos mais membros da sociedade sem perfil político do que com ele. Mas também é um erro desprezar a priori o perfil político de um "tecnocrata", lei-se pessoa com uma profissão não política, rigoroso, com capacidade de trabalho e atenção ao pormenor na sua gestão. Aquele que priveligia a obra feita, e feita dentro da legalidade, em vez das folias e verborreias que escondem contornos à lei e que, mais do sinal de luta pelo povo ou pela democracia, denunciam luta pela sobrevivência.

O elogio a estes dois autarcas não pode ser confundido, no entanto, com todo o país político, que é muito diferente fora das grandes cidades. Aí, políticos que à primeira vista fariam parte do "sistema", e que descrevi acima, são na realidade pessoas com bom-senso e mesmo integridade, que tentam encontrar solução para o obscurantismo, anacronismo e impracticabilidade composto pelo regime jurídico (que carece de self-tunning) e administração pública. A realidade no país profundo é um pouco mais complexa, mas nem por isso não deve ser analisada e corrigida.

nota 1: Lembram-se daquela frase de Luís Filipe Menezes: "Carmona é competente mas não ganharia nem a sua junta de freguesia"?

nota 2: O melhor exemplo da mentalidade primária anti-"tecnocrata" é a frase de Manuel Maria Carrilho "Os políticos são eleitos, os engenheiros contratados", ao que Carmona respondeu, a mostrar que também sabe, "Se assim for, quem contratou o Eng. Sócrates?"